Um pouco ao redor de toda a Europa, salvo uma ou outra exceção, os espetáculos terminaram e as cortinas, por fim, baixaram, dando-se por encerrada mais uma temporada desportiva. Uma época rica em narrativas e que alimentou milhões de adeptos ligados ao mundo do futebol. Uns mais felizes e outros mais insatisfeitos, esta, por certo, foi uma época onde a festa do futebol foi celebrada com grandes doses de emoção. Numa era em que o dinheiro move muito daquilo que engloba o futebol, ficou bem patente que o jogo ainda continua a ser das pessoas. Um sentimento que começa na bancada e termina dentro das quatro linhas. Afinal de contas, os jogadores ainda são seres humanos e também eles sonham e sofrem com os mais diversos enredos. Nesse sentido, irei relatar aqui três histórias que poderiam ter sido retiradas de um livro de contos de uma determinada época festiva, mas não, aconteceram mesmo no decorrer desta temporada.
Quando Lamelas foi destaque na imprensa desportiva nacional

Para iniciar esta caminhada, iremos fazer uma pequena deslocação ao interior do nosso país, mais especificamente a Lamelas, uma pequena aldeia de Castro Daire. Uma terra que, no mês de fevereiro, de surpresa, marcou a imprensa desportiva do nosso país. O motivo? Este prende-se com a incursão de Licá, o internacional português, na equipa local, a disputar a Divisão de Honra da AF de Viseu. Um ano após ter terminado o seu contrato com a B SAD, onde competia na Segunda Liga, o extremo, de 34 anos, decidiu descer três divisões e ir para o futebol amador. Estranho? Talvez um pouco. No entanto, o motivo é simples e justifica a escolha. No fundo, Licá decidiu, após uma carreira a disputar competições ao mais alto nível, ingressar no Lamelas e ajudar os seus conterrâneos a elevar o nome da sua terra. Um episódio em que o gesto vale muito mais que o desfecho, mas que, felizmente, correu de maravilha, agraciado com o arrecadar do troféu da divisão e uma subida ao Campeonato de Portugal.
Uma decisão de coragem

A nossa segunda história transporta-nos para o país vizinho, numa região não muito distante, a Galiza. Lá, na cidade de Corunha, um histórico do futebol espanhol trava uma das maiores lutas desde a sua existência. Falo claro do Deportivo. Outrora campeões nacionais (1999/2000) e ainda com historial nas competições europeias – de realçar, a meia-final contra o FC Porto na Liga dos Campeões (2004) -, acolheram, ainda, nesta fase, glórias portuguesas como Pauleta e Jorge Andrade. Hoje, quase duas décadas depois, travam uma das maiores batalhas da sua existência, almejando, um regresso à La Liga e às grandes noites no Riazor. É nesse momento de aperto, a disputar uma terceira divisão, que Lucas Pérez decidiu prescindir da La Liga, onde jogava ao serviço do Elche, e retornar ao Dépor. Repentinamente, o avançado espanhol largou um clube da primeira divisão, onde, inclusive, marcava de forma consecutiva há três jogos, para aterrar em Corunha, com a missão de reerguer o clube local. O impacto foi imediato, tendo feito o gosto ao pé por quatro ocasiões nos três primeiros jogos. A temporada ainda não terminou, contudo, o balanço é muito positivo. O Deportivo está na discussão dos lugares de subida, travando, neste momento, um duelo contra o Castellón, a contar para os quartos de final da fase a eliminar. Até ao momento a chave corre de feição, tendo vencido, no passado sábado, por 1-0, no Riazor. O futuro deste gigante espanhol continuará à prova no próximo domingo, em jogo a contar para a segunda mão deste desafio.
Uma decisão tomada “com o coração” e não pelo dinheiro

Por fim, e para terminar este ciclo, viajamos para a Itália. A par de Corunha, chegamos a uma cidade com uma das regiões portuárias mais ilustres da Europa. Uma cidade que alberga um clube histórico e o mais antigo do futebol nacional: Génova. Após uma angustiante despromoção para a Série B, o clube preparou a época com o intuito de retornar àquele que consideram ser o seu lugar. É nesse propósito que um velho conhecido, já no pico da sua idade (35 anos), decide voltar ao clube mãe pela quinta vez: Domenico Criscito. O internacional italiano retrocedeu na decisão de pendurar as chuteiras para realizar uma “última dança”, com o intuito de ajudar o clube da cidade onde viu nascer os filhos. Para tal, disputou o resto da temporada a receber o salário mínimo, naquela que foi uma decisão tomada “com o coração”. Em entrevista à Sky italiana, Criscito referiu que viu ali uma oportunidade para terminar “uma carreira belíssima”. E assim foi, com o desfecho no segundo lugar da Série B e, respetivamente, o ansiado bilhete dourado para a Série A.
Créditos: As imagens foram retiradas das páginas de Facebook do ACR Lamelas – Futebol, Real Club Deportivo de La Coruña e Genoa CFC.
