
O que seria o futebol há um par de décadas? Já pararam para pensar nisso? Felizmente, atualmente há documentação e arquivos suficientes para saciar essa curiosidade. Há livros, registos, jogos em diferido e até séries e filmes que, de certo modo, acabam por fornecer todo o tipo de informações para o adepto mais curioso sentir-se versado no que diz respeito à evolução do jogo. Tudo com o propósito de entender um pouco mais sobre quais foram os pilares e os principais fundamentos – aliados, claramente, das modificações das regras – para o futebol tal e qual como o conhecemos.
O catalisador disto tudo esteve sempre no fundamento: o jogo. A estratégia passou a ser essencial e a principal arma para levar a melhor sobre os rivais. Nessa linha, o processo cognitivo, a par do que acontece nas outras áreas, foi o fator fundamental e decisivo para este desenvolvimento. Não vou entrar pela predominância de estilo, apesar de enquadrar-me mais com um. Não, de todo. O futebol é o confronto de ideias. Ganhar é importante, mas perder, no fundo, também serve para evoluir. Guardiola e Klopp, de filosofias e escolas diferentes, são dois exemplos de treinadores que foram escalando a montanha, graças a uma disputa (saudável) que levou, invariavelmente, à evolução de ambos. É tendo a noção disso, que não irei enaltecer um estilo em detrimento de outro. A riqueza do futebol está nesta diferença, na capacidade para arranjar sempre formas e soluções de superação perante uma dificuldade que se impõe.
O objetivo passa por focar nas valências que estão associadas ao processo cognitivo de uma equipa. Podemos falar de técnica, tática, sem dúvida, todavia, esses fatores só serão realmente úteis quando potenciados no global. Ou seja, o coletivo e o entrosamento é o segredo para o sucesso. É isso que as mais diferentes filosofias (vitoriosas) têm em comum. O Barcelona e o City, de Guardiola; Liverpool, de Klopp; o Milan e o Real, de Ancelloti; o United, de Ferguson; o Porto e o Inter, de Mourinho; o Leicester, de Ranieri; entre outros. A lista é extensa. Todos eles tinham isto em comum: um superorganismo. Um termo utilizado para uma espécie de animais, independentes, cujo trabalho em grupo, para atingir um propósito, os transforma num único e imenso organismo. Um exemplo perfeito são as formigas, que, em pleno mês de junho, já cooperam umas com as outras com vista à recolha de alimentos para o inverno. Esta crença na importância do papel de cada um, que leva a uma atuação sincronizada com o próximo (quase de forma cega), beneficia o grupo na obtenção de qualquer tipo de resultados. Sem esta harmonia e comprometimento o trabalho torna-se sempre complicado, por mais capacidades e aptidões que tenham as partes.

No fundo, seja qual for o fundamento e a ideia, nenhum deles, repito, nenhum deles, irá resultar sem haver uma harmonia e uma aceitação por parte de todos os integrantes. Os treinadores passam todos por esta fase. Todos eles têm uma ideia de como querem trabalhar, mas só após verem as caraterísticas de cada grupo de trabalho (porque todos são diferentes) é que, em conjunto, desenham um modelo de jogo. E, para este resultar, será necessário, como é evidente, um aval desta proposta. Os atletas têm de sentir que “morrem”, não literalmente, por algo que identificam como a sua identidade. E se há algo que existe no futebol e nos restantes desportos coletivos, daí ter falado de um superorganismo, é este companheirismo, esta entrega e prontidão, quase que instintiva, em dar sangue pelo colega de balneário.
Antes da implementação de seja o que for, tem de existir uma aceitação. Penso que a verdadeira inteligência é o entendimento dessa parte. Acima de tudo, é o essencial para que um ciclo, logo ao começo, não tenha os seus dias contados. Um treinador pode ser um grande estratega, contudo, se não souber aplicar as suas ideias em função do que é melhor para todos, dificilmente terá sucesso. O mesmo se adota a um jogador. Por mais genial que seja, com um toque de bola desenvolvido e apurado, se não souber utilizar isso em prol do conjunto, servirá de muito pouco. Ou seja, no fundo, são virtudes valiosas, poderosas, mas que de pouco valem se não enquadradas adequadamente e onde sejam benéficas para o grupo. Daí, cada vez mais, ser essencial uma boa gestão dos recursos humanos, passando pela lapidação do que há de bom até à destreza da resolução dos conflitos e barreiras que poderão surgir. Tudo é importante para apresentar um trabalho pleno e digno. Na minha ótica, este é um aspeto em comum (e de uma enorme relevância) na evolução de todas as atividades coletivas.
Créditos: Imagens retiradas do El Parisien, El Ciudadano e do Facebook do Manchester United.
