O poder da palavra no mundo do treinador

Foto: Ángel Martínez/RFEF

O futebol é uma modalidade simples e com um objetivo claro: marcar mais golos que o adversário. E, num retângulo verde com 105 metros de comprimento e 68 por largura, as decisões mais sensatas que se tomam nesta imensidão de espaço para alcançar esse propósito serão sempre aquelas que colocam os interesses coletivos acima de qualquer glória pessoal. A história assim o diz. Ninguém, por mais determinado que seja, escala o muro sozinho. Mas, em contrapartida, com a sinergia certa e juntando forças, um grupo de indivíduos poderá ultrapassar esta barreira e vislumbrar o outro lado.

No entanto, apesar de parecer uma fórmula simples, é preciso meter a engrenagem a funcionar. E para agilizar este processo será necessário um líder, que, para lá da estratégia (função auxiliada sempre pelo staff), faz-se notar pela comunicação, a ligação de proximidade, a empatia e a gestão dos recursos humanos. E os exemplos de sucesso multiplicam-se ao longo de décadas. O mais recente de todos bem aqui ao lado: Luis de la Fuente. Ao comando da seleção espanhola, pegou numa geração que já bem conhecia, dos escalões de base, e montou um coletivo que impera sobre qualquer individualidade. E o próprio técnico basco é exímio na forma como o faz, com uma postura de figura paternal, mas também exigente no campo de trabalho. Porque na vida tudo depende do quanto estamos dispostos a pagar o preço. E diria que a fatura até tem sido positiva para a “roja”, contando com uma Liga das Nações (2023), um Euro (2024) e um Mundial (2026).

Um caso que poderá servir de estudo para dois técnicos, em fases de carreira distintas, que irão enfrentar desafios. O primeiro caso é o de Francesco Farioli. De forma perspicaz, o técnico italiano lambeu as feridas do passado, tanto as deles como as do plantel do F. C. Porto, e criou um sentimento de união em torno de um único objetivo. Através de ideias claras, trouxe estabilidade e convenceu todo o grupo a vestir o “fato de macaco” quando necessário, recuando linhas independentemente da dimensão do adversário, algo pouco usual numa equipa grande em Portugal. Foi suado, mas resultou. Contudo, os estímulos para esta época são diferentes. Os “dragões” partem como campeões e, por mais que Farioli queira o papel de “underdog”, não o é. O desconhecido tornou-se conhecido e as equipas já estudam cada detalhe da ideia de jogo do F. C. Porto ao milímetro. Resta agora saber como Farioli vai enfrentar este teste e continuar a motivar a equipa. Uma coisa é certa, se houver momentos de desinspiração, basta olhar para Luis de la Fuente. Partiu para o Mundial como favorito, gerou dúvidas após a primeira jornada e acabou por celebrar um novo êxito.

Noutro contexto, José Mourinho, uma “velha raposa” do mundo do futebol, também encontrará no Real Madrid um grupo que precisa urgentemente de alguém que os oriente. Foi esse motivo que levou Florentino Pérez a apostar novamente no treinador português. Num grupo talentoso, mas que vem de um ciclo negativo, de instabilidade, atritos internos e até alguma desconfiança, cabe ao “Special One” voltar a dar o ar da sua graça e colocar um pouco de ordem em casa. O método já é conhecido: formar um “exército” e centrar sempre para si as atenções, desviando do grupo qualquer animosidade. Há dúvidas externas, muitas, perante um clube cuja cultura não permite esperar pelos resultados. Mas, sem saber o desfecho, diria que a escolha foi acertada, tendo em conta as condições.

Deixe um comentário