Ten Hag: O escolhido

Declarações de Erik Ten Hag

Créditos: Imagens retiradas da página de Facebook do Manchester United

Já muito se diz e escreve sobre a pesada derrota sofrida pelo Manchester United perante o seu maior e eterno rival: o Manchester City. Na necessidade de descobrir um culpado para o “desastre”, que teve como palco o Etihad, muitos apontam as agulhas para o técnico dos red devils. O técnico holandês, responsável pelo renascimento do velho adormecido Ajax, Erik Ten Hag, sofre as consequências de um dos trabalhos mais ingratos do desporto. Entre os vários defeitos apontados à sua estratégia, o principal, e catalisador da avalanche de comentários negativos, terá sido a opção no escocês McTominay, em detrimento da mais recente aquisição, Casemiro.

Em primeira instância é vital recordar que o jogo em questão seria contra a equipa que, e isto é algo sempre muito subjetivo, apresenta o melhor futebol da atualidade – a par da sensação Arsenal. Falo claro de um Manchester City que, e diferentemente do Arsenal e até mesmo da situação do Manchester United, tem as suas bases bem estabelecidas e sólidas há um par de épocas, sendo que, e face ao único defeito que apresentava nas épocas anteriores, conseguiu solidificar o seu valor ao suprimir a sua maior fraqueza, através da aquisição de Haaland.

Posto isto, será assim tão chocante e difícil de dirigir as dificuldades apresentadas por um United que apresenta as dores de crescimento de um projeto e de uma aposta recente? É verdade que foi contra um rival, mas nada apaga os factos que remetem para este confronto. No final de contas esta é apenas mais uma jornada de uma caminhada extensa. Os mais críticos irão pegar neste jogo, e na fraca primeira parte frente ao Brentford, para condenar a equipa orientada por Ten Hag que, e é bom não esquecer, surge num sexto lugar na Premier League, com uma jornada a menos que grande parte dos seus adversários diretos. Algo que se traduz em 12 pontos em sete jogos, alguns deles com exibições bem convincentes, o suficiente para Ten Hag ter sido eleito o treinador do mês de setembro da primeira divisão inglesa.

É necessário ter uma abordagem mais cautelosa quando se fala de um histórico, cujo problemas se agravam de ano para ano, e que disputa a competição de futebol, ao mais alto nível, com maior poder competitivo do mundo. Ao olhar para estes fatores não se pode esperar que o técnico holandês transforme toda a estrutura do clube da noite para o dia. O desgaste foi a longo prazo e, num processo natural, o seu reerguer será, também ele, a longo prazo.

Tomemos o exemplo de Alex Ferguson ou Jurgen Klopp – ironicamente os homens que reergueram tanto o United como o Liverpool, nas suas fases mais negras da história. E quando digo para tomar o exemplo, é isso mesmo, não uma comparação. Assim sendo, no caso do primeiro, falamos de um Manchester United que se encontrava numa depressão extrema. Os red devils não venciam o campeonato há mais de 19 anos e, com a chegada do lendário técnico escocês, a transformação começou a ser realizada, culimando com o primeiro título da divisão passado seis anos. Exatamente, Alex Ferguson demorou seis anos para vencer o primeiro campeonato. Pelo caminho sofreu todo o tipo de pressões, inclusive, com a exigência da sua demissão por parte dos adeptos, mais precisamente na sua terceira época – ironicamente, uma temporada em que a turma de Old Trafford investiu bastante, condizente com os orçamentos da época, para reforçar o plantel.

No caso de Jurgen Klopp, a história também não é feita de um sucesso precoce. Os reds, no comando do técnico alemão, somente conseguiram vencer a Premier League na sua quinta temporada. E as primeiras foram marcadas por muitos sobressaltos. De relembrar, e é bom nunca esquecer, que na sua terceira época, os Reds sofreram um pesado 5-0 do mesmo Manchester City. Aliás, na sua terceira época em Manchester, Alex Ferguson, também ele sofreu uma pesada derrota, por 5-1, nas mãos do Manchester City. Um freguês, como dita a história, de equipas em processos de reformulação.

Estes são dois exemplos perfeitos para reforçar a narrativa de que os processos de restruturação são sempre complicados e demorados. E exemplifiquei com estes dois casos porque o seu sucesso já está mais que comprovado. A história assim o diz. No entanto, também poderia falar do processo do Arsenal. É arriscado, uma vez que ainda não conquistaram nada. No entanto, não deixa de ser curioso como Arteta, em muito pouco tempo, passa de “besta” a “bestial”. Um treinador que até há bem pouco tempo tinha o seu cargo contestado.

Não é de todo minha ideia querer afirmar aqui que o Ten Hag vai transformar o United. Não faço ideia, não adivinho o futuro, nem é minha pretensão. Porém é necessário dar tempo ao tempo. Julgar um projeto com meia dúzia de jogos (e não é para levar este número na literalidade) é muito injusto e uma forma muito errada de olhar para as coisas, principalmente quando grande parte do plantel nem sequer foi idealizado pelo técnico. Estes são processos que até estarem à medida das ideias, e de acordo com a visão do técnico, poderão ter uma colheita demorada.

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