Guarda-redes: O posto que se tornou estatuto

Diogo Costa no Estádio do Dragão

Créditos: Imagem retirada da página de Facebook do FC Porto

A posição de guarda-redes numa fase mais precoce do jogo foi vista como algo secundário e menos relevante. Geralmente, quem ia para ocupar o espaço à frente daquele “vazio” era um jogador com menos capacidade técnica, ou por outras palavras, alguém pouco eficiente com a bola nos pés. E, com o evoluir do jogo, o papel desta posição foi ganhando outro tipo de destaque, com outro tipo de protagonismo, e o guarda-redes passou a ser alguém com um estatuto devidamente reconhecido pelos demais e com uma influência determinante no jogo. Para tal muito se deu às várias e intermináveis defesas que valem recortes fotográficos, e que são fruto de reflexos ao alcance de poucos. Certamente que todos têm presente uma imagem épica, um momento inédito, no fundo uma defesa impensável aos olhos dos comuns mortais e que abrilhantou a visão romântica relativamente ao jogo. Certos ilustres que com maestria tornaram o impossível no possível, e transformaram golos certos e os seus respetivos festejos, em verdadeiras angústias, ou vice-versa, tudo graças a uma intervenção divina do porteiro da linha de golo. Seja a do Gordon Banks – a uma cabeçada de Pelé no mundial de 1970, em que a dado momento parecia indefensável, mas que, no entanto, e de forma “felina”, o britânico impediu um golo certo – até à defesa do Neuer contra o Arsenal, das monumentais investidas de Buffon, Seaman e os Schemeichels, até ao super Ochoa nos campeonatos do mundo, etc.

Atualmente, não é qualquer um que serve para assumir uma função que requere muito mais que reflexos ou agilidade. A modernização do jogo veio trazer outro estatuto ao guarda-redes. Tornou-o no primeiro participante no processo de construção e alguém com capacidade para prevenir o último recurso. Em que sentido?! Estamos em concordância que a defesa é o último recurso, certo? Nesse caso, se o guarda-redes e a sua linha defensiva conseguirem controlar e, de certo modo, evitar a finalização, não se elimina a probabilidade de sofrer? No fundo, o guarda-redes é de excelência quanto melhor conseguir premeditar a necessidade de vir a realizar uma intervenção “apertada”. E muito se deve à sua capacidade do controlo da profundidade. Tendo isto em conta, não podemos esquecer outro requisito imprescindível para um guarda-redes: o controlo aéreo. Falo da capacidade para ser voraz e útil no momento de sair entre os postes – um momento do jogo do qual atualmente se carece muito. Ora vejamos, o guarda-redes é o único jogador que, e dentro da sua área, pode utilizar as mãos; ou seja, este usufrui de um alcance único e, para tal, é uma força na organização de uma equipa perante as bolas paradas. Face ao que foi posto podemos deduzir que há uma componente determinante para distinguir um bom guarda-redes de um menos competente: o poder de decisão. Se formos associar a um campo, claramente, está inserido nos atributos mentais.

Olhando a tudo isto, e tendo em conta a forma distinta como jogam muitas equipas, temos de percecionar o guarda-redes enquanto uma referência do seu jogo. Não é por acaso que o encaixe do Ederson no Manchester City é perfeito. É o guarda-redes ideal face à ideia de jogo. Não se destaca pela sua capacidade para parar remates, está longe de ser um fora de série nesse aspeto, no entanto, consegue meter a bola a onde quer. E isso é uma ferramenta muito útil para Guardiola – seja para sair em ataque posicional ou ataque rápido. E nesse aspeto, em Portugal cresce um verdadeiro astro na baliza. Não falo de Odysseas que, apesar dos seus reflexos acima do padrão, apresenta um enorme problema no controlo da área e na capacidade para jogar com os pés. Falo, claro, de Diogo Costa. Um jovem de 23 anos que, e posso assumir sem pudor, é um dos guarda-redes mais completos do mundo. Tem uma capacidade instintiva muito boa; inclusive, graças aos seus reflexos já garantiu muitos pontos ao Porto. No entanto, seria bastante limitador olhar para ele apenas neste contexto. Aliás, nem é por esta particularidade que se destaca. O Diogo Costa apresenta um recurso com os pés fora do alcance de muitos, revelando uma precisão no toque e um timing acima da média. E para ajudar à festa, um controlo da área muito eficiente, embora pouco ortodoxo, aliado à capacidade para barrar qualquer remate da marca dos 11 metros. De momento, só vejo uma falha no jogo dele: o controlo da profundidade. Ainda é pouco maduro neste aspeto, contudo, e face à juventude, penso que é algo que terá tempo para evoluir. E, caso venha a progredir neste aspeto, certamente que estaremos perante o melhor guarda-redes do mundo!

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